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Templates By Marina
Hoje coloco uma informação mais antiga. Como estou na fase das fotografias sempre procuro carregar a máquina comigo para tirar fotos. Um dia, de dentro do ônibus vi um rapaz e um cão (os dois quase iguais) sentados na calçada. Desci no próximo ponto, voltei correndo e lá estavam eles. Como não tinha como tirar a foto sem ele perceber, tive que perguntar se ele deixava. Desconfiado, perguntou duas vezes porque eu queria uma foto dele. Expliquei duas vezes que achei o conjunto - ele e a cachorrinha dormindo - estético. Para ganhar confiança, conversei, perguntei o nome dele, de onde vinha... mas acho que isso o deixou mais desconfiado ainda.... Comprei uma pulserinha de fios (feia, mas necessária se eu queria conquistar a confiança). Acho que não consegui, mas pelo menos ele deixou eu tirar a foto.

O rapaz se chama Gétsi Mani e a cachorrinha dorminhoca, Ani.
Ele veio de Santa Catarina... sabe-se lá os percalços que ele teve em sua vida, mas o olhar triste desse menino, e o fato dos dois se parecerem, me trouxe à memória aquela história da possibilidade de retornarmos como animais e re-encontrarmos certas pessoas. Será que eles não foram parentes algum dia?!?
Se eu voltar como bicho, quero ser um golfinho, ou um gato ou bicho-preguiça (para compensar a atividade de hoje em dia)
Outro dia eu estava no ônibus inter e não havia mais lugares para sentar... comecei a observar as pessoas e vi um rapaz que parecia estar carregando o mundo em seus ombros.
Me lembrei do poema de Drummond e não resisti quando vi que ele, cansado, sentava nos degraus do ônibus: peguei minha máquina e fiz uma foto dele....

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Puxa.... a viagem de ida para Sampa foi cansativa, com uma senhora de idade a meu lado (eu estava na poltrona do corredor e minha amiga na janela) que não paráva de tossir (e, o pior: tossia virada para o corredor) hehe.
Cada solavanco do ônibus que voava (será por isso o nome Cometa?) Eu até já criei um "slogan": "Cometa... nunca mais cometa o erro de ir com ele..." hehehhe enfim... retomando...., cada solavanco do ônibus me acordava. E não foram poucos os solavancos!
Depois escutei o som de sapatos serem retirados de pés cansados e um cheiro, primeiro forte e azedo e depois (graças às janelas abertas imeditamente após a ação dos pés) mais fraco e suportável, invadiu o ar parado do ônibus.
Chegamos em Sampa - garoando como sempre - (ida ao banheiro para lavar o rosto, se recompor, sacudir a alma e o espírito, acordar a mente: "_não... vc não está em Curitiba, está em Sampa!") .
Tomar um café com leite (minha paixão) e comer um enganador pão de queijo... por que os pães de queijo de Sampa são sempre enganadores?
Na USP então!!! (com garoa) Cada funcionário que me atendia era só sorrisos. Cumprimentos, apertos de mão... Uma atenção que adoro e que sempre recebo de todos os funcionários da USP (já fui para lá algumas vezes , no IEB, fazer pesquisa sobre Guimarães Rosa). A USP é um exemplo de cidadania para mim!
Fiz a inscrição sem maiores delongas. O funcionário simpaticíssimo comigo. Recebeu meus documentos, expliquei que o projeto de doutorado eu deixaria no escaninho da prof. Cleusa Passos, ele sempre solícito, explicando onde era. Eu já sabia.
Diploma de psicologia, diploma de Letras, histórico da graduação, ata da defesa (mestrado), histórico do mestrado, identidade, cpf... enfim... toda aquela papelada que exige para si o direito de nos apresentar, como se fôssemos exatamente aquilo: identidade, certificados, diplomas... mas tudo bem... sei onde vivo e sei que devo deixar a papelada me apresentar. Mesmo assim teimo em sorrir e apertar mãos, para sentir o outro, para ME sentir no outro. Essa alteridade que não tem fim.... SERES humanos se cruzando. Não somente papéis (no sentido papel físico e papel dramático).
Adoro a USP. Me sinto muito bem naquele local. As várias pessoas diferentes que passeiam ao meu redor...., os professores que conversam na cantina...... Os papos que escuto de esguelha, roubando as palavras que ouço e procurando sorver cada sensação... Ah... realmente adoro a USP.
Comprei alguns livros na editora.... visitei o IEB (como sempre)... mas dessa vez vi com cuidado e admiração as várias caricaturas do Mario de Andrade. FANTÁSTICO!!!! Adoro isso. Os quadros da Anita e de outros,.... as esculturas... a arte me alimenta de uma forma! Aliás a literatura e as artes em geral estão no topo da minha cadeia alimentar.
Biblioteca... mais fotocópias de livros sobre Cortázar.
Retorno de Sampa: novamente Cometa. Mas o próximo ônibus só sairia às nove... estávamos na rodoviária e eram sete horas. Fomos comer algo e tomar um suco. Saudades da graviola (tempos nordestinos) me fizeram escolher esse suco. Fechando os olhos quase dava para me imaginar lá. Deixo o sabor da graviola escorregar lentamente em minha boca, insinuando-se por todos os recantos, desconhecidos até para mim.
Daí... novamente banheiro para o último asseio ("mini" banho, escovadelas, lavar o rosto, escovar os dentes, pingos de perfume - adoro perfume) e sala vip da Cometa para aguardar o ônibus.
Viagem de retorno sem tosses ou pés cheirosos, consigo duas poltronas só pra mim. Consigo dormir, apesar dos olhos cansados quererem dormir e a alma querer admirar o lindo tapete negro com infinitas estrelas piscantes que me paqueram... como as noites são mais estreladas na estrada! (sim, eu sei que é efeito da falta da iluminação das cidades que estragam todo o visual celeste...) mas prefiro relacionar poeticamente com a viagem - elemento tão literário e psicológico. Mudança... novos ares... novas visões... etc... Sim! O céu das estradas sempre serão mais estrelados para mim!
Cheguei em Curitiba três e meia da madruga. Surpreendo uma cidade quase nua, indignada pelos meu olhar indiscreto. Admiro a cidade que tanto amo, vazia, estrelada (puxa... também vejo as estrelas aqui!), silenciosa, uma amante perfumada que não me traiu: está sozinha. Aguardou meu retorno porque também me ama. Hehe. Não adianta, amo minha cidade!!!
Por vezes eu sonho.... meus sonhos me trazem alívio, dúvidas, incertezas, clarezas, vida... adoro literatura e sempre estou lendo algo (ou até vários algos ao mesmo tempo), mas não acho que um blog deva ser apenas recortes de literatura dos outros.... tenho lido muito ultimamente sobre literatura e fotografia (estou montando uma oficina sobre isso). Minha xará Susan Sontag tem um livro muito bom que recomendo: Sobre fotografia. Mas também estou lendo vários outros e estou retornando às fotos. Coisa que há muito não fazia mais. A fotografia (escrita da luz) me fascina. Tenho tido muitas idéias e pretendo fazer com que 2005 seja a concretização de meu livro de contos com fotos minhas... Mas não sei se não vou acabar indo para Timor Leste (pois adoraria ir até lá, ficar um ano, ensinando português...) Sonhos. Não sei o que vai acontecer em 2005... mas independente disso sinto que meus sonhos tem me dado raízes... não para me fincar a um só lugar, mas raízes para me fortalecer para depois poder voar.... é isso que acredito. Espero que 2005 me traga tanta felicidade e conhecimento quanto 2004 me trouxe. Só isso.
Fico com receio de falar dos filmes e a pessoa que ler não ter visto ainda. Por favor, se vc não viu o filme "Uma simples formalidade", não leia os comentários a seguir. Veja antes o filme. Ele é cheio de "pistas" fornecidas no decorrer da história. Desde o nome do personagem de Gerard Depardieu: ONOFF até a chuva, a ratoeira entre outros pequenos detalhes. O nome? on off o que traz à lembrança de vcs? Isso mesmo: ligar e desligar. Essa é uma das chaves do filme.Algo está sendo ligado e algo está sendo desligado. Observem bem. Percebam quando começa a chover e quando termina a chuva.... quando a ratoeira dá o clic de que pegou "algo". Depois de todo o filme assistido, retornem ao início, perceberão a direção da arma e conseqüentemente do tiro. Por que nada funciona? Por que esse "isolamento" do mundo circundante? Perceberão que se trata de um local de passagem, de transição. Tem muitos outros detalhes, mas prefiro que vcs assistam e depois venham conversar comigo. Ah, sim, a música ela também tem tudo a ver com o filme. Ricordare ou recordar.... não digo mais nada!!!!!
Quem gosta de literatura (não necessariamente somente Cortázar) poderá se esbaldar aqui em Curitiba com os eventos a seguir:
http://www.casahelenakolody.com/workliteratura.asp
e também o http://www.ufpr.br/eventos/cortazar/
Serão abordados diversos temas que poderão ser transpostos a qualquer autor, basta ter um mínimo de conhecimento literário.
Volto a conversar outro dia.
Cortázar nasceu na Bélgica, mas viveu a infância na Argentina (seus pais eram da Argentina) e passou a maior parte da vida morando em Paris (onde se auto-exilou) até morrer. Seus contos são ricos em envolvimento do leitor, mas também seus poemas e romances procuram atrair o leitor para que abra as portas e conheça outras realidades. O meu conto favorito é "Continuidad de los parques". Nele o envolvimento do leitor é tão grande que associo ao desenho feito por Escher "exposição de gravuras" que anexo a aqui:

Cortázar fala do ponto vélico em alguns de seus escritos. Para mim esse ponto vélico é como uma fissura que permite com que a pessoa perceba outras realidades. No desenho de Escher o homem que admira o quadro não percebe que faz parte do mesmo, assim como o leitor de Cortázar no conto. O ponto central do quadro ficou em branco e Escher disse que assim o fez por ter dificuldade em assimilar as duas realidades. Para mim o ponto vélico (ou ponto branco de Escher) no conto é o livro. Pois ele é que permite que as duas histórias do conto sejam amalgamadas, e mais ainda... que nós, como leitores empíricos também sejamos envolvidos nessa porta mágica que é o livro. Ainda mais se estamos lendo o conto sentados em uma poltrona de veludo verde e de frente a janelões que mostram árvores. Olharíamos para trás? Por fim, coincide a morte do leitor ficcional, com o fim do conto, com o nosso fim como leitor empírico. Maravilhoso esse escritor que agora dia 26 de agosto faria 90 anos de idade. Parabéns a ele...
Olá de novo.
Vcs já devem ter visto aquelas estátuas de rua, que apenas se movimentam com doações em dinheiro. Pois é... geralmente passo correndo pelo centro, mas dessa vez fiquei parada afastada e observando as pessoas que paravam na frente da estátua, esperando algum movimento por ínfimo que fosse. Ao observar essas pessoas percebi que eram como espelhos da estátua. Sem perceber elas também tomavam essa forma pétrea, quase sem respirar. Observadores observados por outros. Estátuas que olhavam estátuas...

E me lembrei que por vezes eu me sinto como uma construção (ou desconstrução) pois sou formada de várias coisas que foram se "agregando" a mim, se colando, me "chupando" energia. Então me pego quebrando certas máscaras construídas desde pequena e inseridas à minha pessoa. Me vejo destruindo certos conceitos e imagens que não me cabem mais. Me desfaço delas aos poucos e assim vou me descobrindo, percebendo quem realmente eu sou. O que realmente eu penso e sinto por mim e não pelos outros...
E isso, apesar de dolorido, é muito bom. Dá uma sensação de liberdade deliciosa que espero nunca mais perder. Experimentem...
Um abraço a todos.
Aqui estou eu novamente.
Dei recentemente uma palestra na Tuiuti sobre espaço e literatura em um conto de Cortázar: "Continuidad de los parques". Ao final, uma das perguntas que apareceram foi
: Cortázar domesticava ou ensinava os leitores? Antes de discutir a resposta gostaria de contextualizar pois assim vcs se situam no porquê desta pergunta. Na minha fala sobre esse conto, e sobre a teoria que Cortázar utiliza, eu expliquei que Cortázar busca leitores ativos, que busquem algo mais dentro da literatura. E que no conto ele faz uma certa crítica ao descrever o "abandono" do leitor ao livro... Um leitor passivo, que nada mais vê.![]()
Bom, retornando à pergunta: creio que Cortázar não domestica e nem sequer ensina o leitor. Pois ensinar é uma forma de mostrar um caminho e o que Cortázar busca é instigar, ou cutucar, o leitor. Assim ele buscará novas leituras, novas conexões de acordo com sua vivência anterior, suas leituras anteriores e assim por diante. Por isso cada leitura é única, pois cada leitor é único.
Sobre Cortázar vcs podem visitar um blog e um grupo de discussão que são muito interessantes: blog http://cronopios.zip.net/ e lista de discussão: http://br.groups.yahoo.com/group/cortazianos/.![]()

E...leiam... Cortázar é muito bom. Não recomendo uma leitura específica porque se deve acreditar que o livro certo acabará caindo em suas mãos. mas se vc quer conhecer o conto que eu falei, procure o livro Final del juego.![]()
Um abraço a todos.
Uma iniciativa ousada...
Escrever e... falar de livros e de artes.
Espero que compreendam que apenas desejo incentivar a leitura...
Por que gato? A maioria dos grandes escritores e poetas tinham gatos. Veja Guimarães Rosa, Neruda, Baudelaire, Cortázar, Mario Quintana, entre vários outros... Também eu gosto desses animais enigmáticos...

Sentem-se, acomodem-se e entrem nessa viagem literária.
Para início de tudo, um pequeno poema:
PEQUENO MUNDO DE AMOR.
No princípio era o beijo
doce e profundo
logo após o perdigoto veio
no bafo um pouco imundo
Por fim, o cuspe no seio,
acabando com o mundo.